O bom cidadão

 Por Caroline Franciele



Um homem acorda pela manhã, prepara seu café, liga a televisão, senta-se em frente à mesa e acompanha a notícia. Seus olhos logo caem e sua tez fica tensa frente a todos os rombos  e círculos de corrupção que seu país enfrentava. Se seu pai fosse vivo, certamente cairia para trás, em sua época as coisas eram mais honestas, diria o finado.

Indignado, pega as chaves do carro, pronto para ir trabalhar. Ah, mas hoje teria que lidar com o engomado da contabilidade, um pé no saco. Melhor seria então pegar um atestado médico e deixar que outro idiota lidasse com isso. Meia hora entre consulta e atendimento, uma falsa enxaqueca, uma ligação para o chefe e pronto: já não era mais problema seu.

Vai até a lotérica acertar algumas contas. Vê um conhecido do futebol na fila e pegar lugar com ele. Somente um maluco para esperar tanto na enorme fila que se estendia na calçada e estava num sol rachante. E, afinal de contas, amigo de pelada é para essas coisas.

Vai ao mercado, vê que a fila prioritária estava bem menor, como estava com pressa, logo começou a arrastar a perna e em menos de cinco já estava de volta ao carro. Aumenta o som do rádio para se descontrair, corta caminho no engarramento para poder sair na frente do semáforo. Veja bem, estava com pressa e os motoristas daquela cidade dirigiam feito um par de lesmas. Isso mesmo, um par de lesmas era o que esses idiotas eram.

Vê que o bar que gosta de jogar sinuca está aberto, estaciona em frente a garagem de uma velha solteirona. Ela não tinha carro e nem marido, então para que se preocupar com a entrada da casa?  Ninguém iria entrar ou sair com o carro e ninguém viria tirar satifação pelas dores da velha. Ah, velha filha da mãe, vai xingar outro!

Entra no bar, deixa a aliança no porta-luvas. A cerveja estava gelada, estava com uma boa mão no truco e a sinuca foi aquele sucesso. Sai de lá tarde, cambaleando. Mensagem para a esposa. Iria chegar tarde, hora extra no serviço para consertar as cagadas do contador. Corno, desantento! A mulher responde. Não se estresse, vá dormir e dê um beijo nas crianças por mim. Quantos sacrifícios fazia pela família!

Entra no carro vendo dois volantes, não faz mal, já dirigia há décadas e sabia em qual rua o comando costumava ficar. Arranha a lixeira do vizinho com uma leve batida. Aquele nerd merecia, ninguém mandou ser abirolado e metido a besta.

Entra em casa, 03:00 da manhã. Merecia descansar, vai para a cama e vê que a televisão ainda estava ligada. Os filhos gostavam de gastar dinheiro! Ligavam a tv para fazer  o dever de casa. Mas, quem lê enquanto assiste televisão? Ou um ou outro. Balança a cabeça tenso, amanhã iria pegar essas crianças de pau enquanto a mãe não via. Crianças se machucam na escola o tempo todo, vivem arranjando briguinhas com os colegas, diria e concordaria com a mulher enquanto ela desaprovaria a violência. Afinal, ele também era da paz.  

Pega algumas moedas da mesa de centro e as enfia  no bolso. Os trocados eram para os pobres, dizia a esposa, mas, mais pobre que ele, não havia. As pessoas gastam muito dinheiro a toa com farra. Ele era um homem ajuizado.

Pega o controle remoto nas mãos e, antes que desligue a televisão, vê a notícia no repórter que o político fulano de tal foi preso por corrupção. Desliga a tv e vai para a cama indignado com a corrupção tão presente no seu país. Como um assalto a mão desarmada acontecia assim? Sorte que ele era um bom cidadão e isso já bastava!

Comentários

  1. Li seu texto. Texto bastante político. Gostei.

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    1. Fico feliz que tenha gostado!! Uma cutucadinha na política de vez em quando faz bem.

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